Antecipe-se para não perder talentos
Mais do que estar pronto, muitas vezes é preciso se antecipar aos acontecimentos. Principalmente quando se fala em gestão de pessoas
por Gumae Carvalho
“Lembro-me de uma conversa com José Carlos Teixeira Moreira, diretor da Escola de Marketing Industrial. A certa altura do bate-papo, ele comentou que a empresa que ouve o cliente está atrasada. Por uma eternidade de uns 10 segundos pensei como isso poderia ser possível, uma vez que proliferam os canais de relacionamento com o consumidor. Pela expressão de dúvida que fiz, ele se adiantou e não esperou que eu perguntasse o porquê.
Sucintamente, ele me explicava que ouvir o que o cliente queria era estar um passo atrás. As empresas deveriam estar uns dois quilômetros à frente, antecipando-se aos desejos de um ator fundamental na grande trama da competitividade de hoje. “Quem apenas ouve não antecipa nada”, ele disse. Entre escutar o que o consumidor quer e a oferta desse novo produto ou serviço pode existir um hiato fatal: outra empresa pode ser mais rápida e ágil para satisfazer essa necessidade ou o próprio consumidor pode mudar de idéia. E todo aquele investimento vai por água abaixo.
Acredito que no que se refere à gestão de pessoas essa premissa seja tão verdadeira quanto urgente. Já que o tema mudanças é recorrente, qual organização não desejaria ter equipes prontas para qualquer ajuste ou abandono de rota? Qual empresa não gostaria de ter funcionários capazes de gerar soluções que a colocassem na frente do mercado, capazes de surpreender os clientes, mostrando que, de fato, ela está passos adiante deles?
Exige-se essa competência de cada um de nós, mas até que ponto as empresas olham para seus colaboradores com a mesma preocupação dedicada a seus consumidores? Será que elas se antecipam às necessidades de cada um de seus funcionários? Sei que algumas conseguem se aproximar desse estado de graça na gestão de pessoas - não à toa figuram entre as melhores para se trabalhar.
Em muitas, no entanto, percebemos apenas a aplicação de algumas leis físicas. Se ninguém reclama (seja do café, do salário, dos benefícios), nada se faz - numa versão corporativa da primeira lei de Newton: um corpo permanece em movimento constante ou parado até que uma força externa atue sobre ele. Às vezes, quando alguém reclama ouve uma bronca na mesma proporção, mas em sentido contrário (algo como “Salário baixo? Já viu como anda o desemprego?”). São empresas fadadas ao fracasso, como dois menos dois é igual a zero.
Na pior das hipóteses, agir após ser provocado não é o fim do mundo. Mas não é o melhor deles. A relação entre empresa e funcionário deveria ser como um namoro: cada um dos amantes tende a impressionar o outro, antecipando- se em carinhos, tentando adivinhar o que vai deixar o outro feliz. “Será que se eu me esforçar mais naquele projeto chego a um bom resultado.” “Será que nosso pacote de benefícios está a altura do mercado?” Isso é a conquista diária que deve permanecer na relação, uma constante descoberta do outro. A comparação pode parecer esdrúxula, mas todos esperam que essa relação seja infinita enquanto durar. Falase em fidelidade ou comprometimento. Espera-se que dê frutos. E com prazer.”